Valuation

Quanto vale minha empresa? As diferenças entre valuation de startups e de pequenas empresas

Por 4 de abril de 2018 No Comments

Todo empreendedor um dia quer saber: quanto vale minha empresa?

Seja um empreendedor de startup ou o dono de uma empresa de pequeno porte, todo empreendedor faz essa pergunta em algum momento: quanto vale minha empresa?

As motivações pessoais para fazerem esse questionamento podem variar muito.

Vamos entender primeiro o que elas têm em comum?

Semelhanças entre startups e pequenas empresas

1. Dependência dos empreendedores

Tanto nas startups quanto nas empresas de pequeno porte tudo gira em torno dos empreendedores. Isso significa que todas as decisões e o trabalho operacional do dia a dia ficam a cargo de quem é sócio do negócio.

2. Faturamento pequeno

Ambas as empresas possuem uma receita incipiente. Muitas vezes, no caso das startups, nem isso elas têm.

3. Poucos colaboradores

Um time pequeno é característica comum dos dois tipos de empresa.

4. Querem resolver um problema

Independente das motivações do empreendedor, as duas organizações nasceram para resolver um problema.

Ele pode ser pequeno ou grande, demandar uma solução complexa ou simples, ter concorrência ou ser inovador. Mas, independentemente dessas características, startups e pequenas empresas precisam resolver o problema de alguém para se manterem vivas.

Diferenças entre startups e pequenas empresas

1. Definição do modelo de negócio

Uma característica intrínseca das startups, algo que consta na sua própria definição, é que elas estão na busca por um modelo de negócios.

O que geralmente não acontece com pequenas empresas.

Nesses casos os modelos de negócio são quase que padrões de mercado e o empreendedor mais bem-sucedido é aquele que melhor executa o modelo.

2. Uso de tecnologia

A noção de startup está muito associada com tecnologia, em sua maioria tecnologia de software – mas não exclusivamente.

Ainda hoje se tem a noção de que qualquer empresa nascente que use tecnologia é uma startup. Como um e-commerce. E isso não é mais verdade. O e-commerce já é um modelo de negócio “de prateleira”, muitas vezes sem diferencial. E o que vai contar é apenas a execução.

A verdade é que hoje em dia todos estão usando tecnologia para gerenciar seus negócios. O que vai diferenciar as startups das pequenas empresas é o uso da tecnologia como elemento central do novo modelo de negócios que está sendo criado.

3. Ativos

Levando em consideração que pequenas empresas estão executando modelos de negócio já conhecidos e não utilizam tecnologia como um pilar da inovação, seus principais ativos passam a ser coisas como carteira de clientes e estoque de produtos.

No caso das startups os ativos estão muito atrelados à inovação em tecnologia ou ao modelo de negócio que está sendo desenvolvido.

4. Visão de longo prazo

De acordo com o Professor Steve Blank existem 6 tipos de empresas nascentes. Dentre elas estão as “small business” e as “scalable startups”. Ou seja, pequenas empresas e startups escaláveis.

E ele deixa as diferenças muito claras:

As pequenas empresas são a base da economia dos EUA (e do Brasil também). Representam 99,7% de todas as empresas abertas e empregam 50% da força de trabalho. Sua razão de existir: os proprietários querem ter seu próprio negócio e “alimentar sua família”. Mas, em números absolutos, eles são infinitamente mais representativos do que os empreendedores de outras categorias.

As chamadas startups escaláveis são criadas com o objetivo de serem muito grandes no futuro e causar impacto. Os empreendedores têm um sonho que sua visão pode realmente mudar o mundo. Ao contrário dos empreendedores de pequenas empresas, seu interesse não é sustentar a família, mas construir patrimônio em uma empresa que acabará abrindo capital na bolsa de valores ou sendo adquirida, gerando uma recompensa multimilionária.

5. Quantidade de incertezas

Não é de se estranhar que nem todos os fundadores de startups dão certo. Os riscos e desafios de criar uma empresa com esse nível de inovação e impacto são enormes.

A maioria acaba morrendo na busca por um modelo de negócios com diferenciais suficientes para poder ser chamada de startup.

Portanto, o volume de incertezas é enorme.

Para as pequenas empresas o peso está mais no lado da qualidade da execução. A quantidade de incertezas é menor. Não é desprezível, mas é menor.

Consequências

As diferenças entre startups e pequenas empresas são relevantes. E elas causam um efeito em cascata de alterações nos seus modus operandi.

1. Velocidade de crescimento

Abrir capital na bolsa ou causar impacto no mundo são ambições extraordinárias. Porém, uma empresa não pode demorar muito para atingir essas metas. O mundo muda, concorrentes aparecem, a energia e a motivação do time diminuem.

A natureza de uma startup não combina com lentidão. Pelo contrário, velocidade é quase um mantra para os empreendedores dessa categoria.

A diferença para uma pequena empresa é que, nesse caso, alta velocidade de crescimento não é algo mandatório, ou um pré-requisito para sua existência. É, no máximo, desejável.

2. Compartilhamento de riscos

Sendo assim, para crescer muito, e muito rápido, uma empresa vai precisar de combustível especial. O chamado “smart money”.

“Smart” para lidar com riscos e desafios que o time de empreendedores ainda não está preparado. “Money” para financiar os investimentos em produto, tecnologia, marketing e vendas que farão a empresa dar saltos de amadurecimento necessários.

Diferenças entre valuation de startups e de pequenas empresas

Levando tudo isso em consideração, agora podemos falar das diferenças entre valuation de startups e de pequenas empresas, respondendo à pergunta: quanto vale minha empresa?

1. Objetivo do valuation

Na maioria das vezes que um empreendedor de startup calcula o valuation de sua empresa ele tem como objetivo realizar uma captação de recursos financeiros. Geralmente com investidores profissionais.

O segundo objetivo mais frequente talvez seja para discutir ou realinhar participações societárias com sócios.

E o terceiro, bem menos frequente, e que só acontece para poucos empreendedores, quando tudo dá certo: para negociar a venda da empresa.

Para as pequenas empresas, os momentos em que o empreendedor precisa calcular o valuation do seu negócio são bem mais raros. E, infelizmente, pela minha experiência, nunca por bons motivos.

A grande maioria que vem falar comigo quer “repassar” o negócio para outro. Por várias razões. A empresa está estagnada, o empreendedor está desmotivado ou desistiu de empreender.

Nos casos positivos, vejo exemplos de empreendedores que enxergaram melhores oportunidades e precisam focar suas energias. Ou em processos de consolidação em que empresas médias e grandes compram pequenas para ampliar seu domínio de mercado.

2. O que se compra

Conforme já escrevi em artigos anteriores sobre o que é valuation para startups, representa o preço que algum investidor está disposto a pagar para participar de um retorno futuro e incerto.

Portanto, ele está comprando FUTURO. Não importa tanto o desempenho histórico da empresa.

Já as pequenas empresas estão vendendo seus ativos e os resultados financeiros associados a eles.

A carteira de clientes, associada à eficiência operacional do negócio, gera uma previsibilidade razoável de fluxo de caixa, que vai determinar o valuation da empresa em questão.

Tudo baseado no PASSADO. Se não tem histórico operacional, não tem negociação.

3. Expectativa de valorização futura

Como vimos, nas startups o investidor está comprando futuro. Para definir o valuation atual, o empreendedor precisa convencer o potencial investidor de que ele conseguirá multiplicar o valor da empresa.

Sendo assim, tudo gira em torno da expectativa de valorização futura.

Quanto maior for esse valor e melhor as condições do empreendedor de entregar a visão de longo prazo, melhor será o valuation atual.

Para as pequenas empresas, normalmente, espera-se que o negócio continue, no mínimo, a desempenhar os resultados históricos. A criação de valor no futuro vai depender muito de quem estiver comprando a empresa. Se conseguirá aumentar a eficiência da operação, vender mais ou gerar sinergias com outros negócios.

4. Métodos de cálculo

Baseado em tudo que vimos até agora fica um pouco mais fácil definir qual método de cálculo de valuation utilizar em cada um dos casos.

Para as startups normalmente são usados métodos mais baseados em expectativa de ganhos futuros, como o Método do Venture Capital.

Para pequenas empresas utilizam-se os métodos mais atrelados ao desempenho financeiro atual e histórico, como o Fluxo de Caixa Descontado. Embora seja um exercício interessante para startups, não é nesse método que se deve basear o valuation de uma negociação de investimento.

O coringa nesse caso é o método dos Múltiplos. Uma análise comparativa que usa regras de três, simples, para comparar empresas semelhantes e estimar seus valores baseando-se em informações públicas, ou até privadas, de mercado.

Esse método pode ser usado por ambas as empresas desde que as informações sejam comparáveis. Ou seja, de empresas do mesmo setor, com tamanhos parecidos e modelos de negócios análogos.

Aqui vale uma observação: para empresas desses tamanhos, múltiplos de transações de mercado que acontecem em contextos semelhantes, fazem muito mas sentido do que múltiplos de empresas de capital aberto.

Resumo

Startups e pequenas empresas são organizações parecidas em alguns sentidos:
1. Alta dependência dos empreendedores
2. Faturamento pequeno
3. Poucos colaboradores
4. Ambas querem/precisam resolver um problema

Mas muito diferentes em outros:
1. Definição do modelo de negócio
2. Uso de tecnologia
3. Ativos de valor
4. Visão de longo prazo
5. Quantidade de incertezas

Essas diferenças trazem consequências:
1. Velocidades de crescimento distintas
2. Necessidade de compartilhar riscos

O que resulta em abordagens de valuation bem diferentes:
1. Objetivos de se calcular valuation
2. O que se está comprando: passado ou futuro
3. Expectativa de valorização futura
4. Métodos de cálculo

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